Leituras Complicadas
Vem aí um novo filme da Odisseia
Oi, pessoal!
No momento em que se produz uma nova versão hollywoodiana da Odisseia, leremos muitas bobagens sobre o poema.
Li outro dia um post que dizia que a já famosa tradução de um dos principais epítetos de Odisseu, polýtropos, por “complicado” é mais fiel, precisa ou direta do que soluções anteriores.
Essa é a solução da recente tradução da helenista inglesa Emily Wilson, que o filme tomará por base. O post dizia que as traduções antigas, que vertiam polýtropos como “versátil”, “astucioso”, “multifacetado”, etc. “traíam” Homero, escondiam quem é verdadeiramente Odisseu: um canalha, um vilão, um malandro!
A tradução de Wilson mostra as verdadeiras cores de Odisseu, e isso é algo que ninguém antes tinha percebido…
Duas coisas,
1 - de fato a noção de herói entre os gregos arcaicos é mesmo complexa. Seres liminares, entre o mortal e o divino, heróis não seriam bons amigos para uma mesa de bar. São sempre propensos aos excessos e violências. Aquiles, na Ilíada, causa “milhares de dores aos gregos” -- seus próprios aliados. Odisseu causa a morte dos seus companheiros de viagem. Heróis costumam ser, muitas vezes, mais o problema do que a solução.
2- dito isso, Odisseu é um herói para quem Homero limpa a barra mais vezes do que ele talvez mereça. Em um trecho da Odisseia, lemos um ancião de Ítaca dizer que Odisseu foi mais ou menos responsável por levar seu filho para a morte; em outro episódio, ouvimos algumas ordens perigosas de Odisseu serem devidamente questionadas; e o vemos até mesmo esquecer um companheiro infeliz no meio da viagem…
Mesmo com tudo isso, a Odisseia mostra que Odisseu é um modelo (até mesmo de comportamento!) e que a sua volta para casa e a sua vingança contra os pretendentes não só são justas, como validadas pelos deuses. A morte dos seus companheiros e outras “falhas” de Odisseu costumam ser bastante atenuadas pelo poeta.
Por exemplo: o poeta diz logo no início, que, de fato, Odisseu não salva os companheiros da morte, mas logo acrescenta: “embora desejasse muito”, iémenos per, em grego (essa parte, curiosamente, tão enfática no grego, fica bem apagadinha na tradução da Emily Wilson). Se eles morreram, é porque foram tolos que desrespeitaram os deuses, completa o poeta.
Então,
Traduzir polýtropos por “complicado” é legal porque sopra nova vida ao epíteto famoso, de tradução consagrada; porque é, sim, uma tradução precisa, à sua maneira: “complicado” é, etimologicamente, o que tem dobras; Odisseu é aquele que dá muitas voltas, por aí e nos seus inimigos: ele os “dobra” o tempo todo, valendo-se de mentiras para se safar ou obter vantagens; mas ele também é complexo, pode ser visto por vários ângulos — algo que a literatura grega antiga sabia explorar muito bem.



A felicidade que me deu ler teu texto, Rafael, foi grande! O tanto de debates “complicados” que ando tendo por causa disso! Hahahaha. As pessoas querem pegar a onda de falar mal e não separam o joio do trigo. Eu até já escrevi brevemente aqui no Substack sobre isso. Excelente! 👏🏻👏🏻👏🏻
Excelentes colocações! 👏👏👏 Não sou da área de estudos clássicos, mas gosto muito da literatura grega. Estou relendo a Odisseia e cotejando alguns trechos com a tradução da Wilson. Entendi pelas explicações dela a opção pelo Complicated e não é minha principal crítica, mas o complicado, com o perdão do fraquíssimo trocadilho, é que essa opção acaba demandando mais explicações para o público leigo (nesse caso nos meros mortais que não leem grego) que parece ser exatamente o maior público da tradução dela, até pelo verso que me parece até acrescentado ao proêmio em que diz “tell the old story for our modern times.” Mas ainda vou vendo no que vai dar.